Só sei que foi assim...

Adriana Ferrareto - Edição #016

No final de 2024, uma modinha tomou conta das redes sociais: "Como eu não fui feliz em 2024 se...". E aí vinham relatos cheios de viagens, conquistas, festas, encontros, talvez até um café bem tirado num dia qualquer. Uma avalanche de bons momentos cuidadosamente destacados.

Mas, enquanto assistia esse desfile de felicidade lapidada, algo me cutucava: e o resto? Onde estão as nuances? Onde cabe a raiva, o medo, a frustração, a dor, que inevitavelmente passaram pela mesma timeline, só que invisíveis?

Decidi não me precipitar. Deixei a ideia “marinar” um pouco, tirei férias (porque, veja bem, ninguém é de ferro), e cá estou, com mais clareza para dizer: essa obsessão por só destacar o que foi "feliz" diz muito sobre como a gente lida (ou melhor, não lida) com as emoções.

É claro que, para muitas pessoas, esses posts podem ser só uma brincadeira, uma forma leve de celebrar o que deu certo no ano. E eu respeito isso. Mas o que me incomodou foi perceber como, no geral, a sociedade ainda tem dificuldade de olhar para emoções difíceis. O que não é "feliz" muitas vezes é varrido para debaixo do tapete.

Um ano de muitas nuances

Vou falar por mim. 2024 foi um ano de muitas nuances. Trabalhei muito, conheci gente incrível e outras nem tanto.

Houve dias em que me senti cansada de tudo – os aeroportos, as conexões perdidas, a impaciência que brotava entre uma espera e outra.

Senti raiva, me frustrei com atitudes alheias, chorei de tristeza assistindo cenas do cotidiano que apertam o coração. Mas também chorei de rir. Meu marido sabe como me arrancar gargalhadas, e os memes de gatos ajudaram bastante.

E aí percebi algo: como é comum evitarmos emoções difíceis, como se não sentir raiva, tristeza ou frustração fosse nos proteger de algo. Mas, na verdade, é justamente o contrário. Fugir dessas emoções só nos afasta do que elas têm a ensinar.

A maturidade emocional vem quando permitimos que cada sentimento tenha o seu espaço, sem pressa para que ele vá embora. É nesse espaço que aprendemos sobre quem somos e como podemos crescer.

Foi também um ano de dor física, daquela que parece roubar até o chão. A fibromialgia e a artrose deram as caras de um jeito que me fez tomar morfina. Chorei. Não por drama, mas por puro cansaço e medo do futuro.

Mas sabe o que também fiz? Me emocionei com palavras. Com histórias. A literatura sempre esteve lá, me lembrando que o ser humano é cheio de camadas – como as emoções.

Livros, filmes e reflexões

Li As Meninas da Lygia Fagundes Telles e fiquei atônita com sua capacidade de dizer tanto em tão poucas palavras. Milan Kundera, com A Insustentável Leveza do Ser, me deixou em um estado quase meditativo, me questionando sobre escolhas e pesos que carregamos.

A Cor Púrpura, da Alice Walker, me derrubou (de novo!). Já perdi as contas de quantas vezes me emocionei com essa história – no cinema, no teatro e agora relendo o livro. Cada vez, uma nova camada de dor e beleza.

E aí veio Rachel Aviv com Estranhos a nós mesmos, Mustafa Suleyman em A próxima onda, Leandro Karnal com Preconceito uma história... Cada um me puxando para um mergulho mais profundo em mim mesma e no mundo.

Entendi, de um jeito desconfortável, quantos preconceitos ainda me habitam. Me preocupei com o impacto da inteligência artificial no futuro, tema que Suleyman aborda com uma clareza assustadora. Me vi confrontada por tudo isso – pelas reflexões, pelos incômodos, pelas verdades que não queria encarar.

No meio disso tudo, me permiti rir e chorar. Rir com o gênio do Ariano Suassuna em O Auto da Compadecida. Chorar com o simbolismo de Mufasa, o Rei Leão e com a truculência do que vi retratada em Ainda Estou Aqui.

Fui preenchida de emoção pela vitória de Fernanda Torres no Globo de Ouro – um daqueles momentos que te lembram como é bom celebrar.

Acolher as emoções: coragem e maturidade emocional

Percebe? Foi um ano inteiro de emoções reais. De encontros e desencontros. De altos e baixos. De alegrias e dores. Não teria como resumir 2024 apenas com a pergunta: "Como eu não fui feliz?" Porque a felicidade foi só uma parte – importante, sim, mas só uma parte – do que realmente vivi.

E é aqui que entra a reflexão maior: por que temos tanto medo de acolher todas as emoções? A raiva, o medo, a tristeza e até a ansiedade não são nossas inimigas. Pelo contrário, são professoras exigentes, que nos ajudam a crescer, amadurecer e entender quem realmente somos. Negar essas emoções ou escondê-las debaixo do tapete só nos afasta de nos tornarmos pessoas completas.

É como querer viver num filme onde tudo é perfeito, mas esquecendo que a beleza da vida está, justamente, na imperfeição.

Um convite para viver o ordinário

Acolher todas as emoções é um ato de coragem e também de maturidade emocional. É reconhecer que não existe só um tom na paleta das experiências humanas – e ainda bem!

É no contraste que descobrimos profundidade. Só conseguimos ser de verdade – autênticos, íntegros – quando paramos de lutar contra aquilo que sentimos e começamos a aprender com tudo, até com o que dói.

E aí, vem o convite. Que tal sair do automático? Tire um tempo para ler um bom livro, daqueles que bagunçam sua cabeça e mexem com o coração. Vá ao teatro, sinta o peso das palavras ditas ao vivo e a emoção compartilhada na sala escura. Encontre alguém para conversar olho no olho, sem distrações de notificações e telas.

É claro que essas experiências não estão ao alcance de todos, seja por falta de tempo, recursos ou oportunidade. Mas o convite aqui não é sobre a grandeza dessas atividades, e sim sobre a intenção. 

Não importa se é um teatro famoso ou uma conversa com alguém na calçada; o que vale é olhar para a vida ao seu redor com mais atenção e presença. É no ordinário que mora a beleza – seja em um bom livro ou em um momento de pausa para observar o mundo com olhos mais abertos.

Preste atenção nas miudezas do cotidiano – o sorriso de quem cruza seu caminho, o aroma do café, o som das folhas ao vento. É nessas pequenas coisas que a vida pulsa com mais verdade.

Porque, no fundo, não queremos uma felicidade polida, plastificada, de comercial de margarina. Queremos ser humanos de verdade, cheios de camadas, com risos e lágrimas, coragem e medos, altos e baixos. É nessa autenticidade que encontramos a lucidez para transitar pelo mundo.

Agora, pode ser que você esteja pensando: "Mas por que focar tanto nas emoções difíceis? Não seria mais inspirador falar só do positivo?" E eu entendo. Cada pessoa tem o direito de escolher como quer enxergar e celebrar o que viveu. Se para você é mais confortável destacar só o que foi bom, tudo bem também.

Minha intenção aqui não é dizer como você deve avaliar seu ano, mas sim provocar um questionamento: será que estamos olhando para o todo ou só para uma parte? O que aprendemos ao encarar as emoções que, muitas vezes, preferimos evitar? Para mim, foram justamente essas nuances que trouxeram as maiores lições de 2024.

E, quem sabe, ao final de 2025, você não se pergunte "como não fui feliz?", mas sim "como vivi tudo isso tão intensamente?"

E se alguém insistir em saber como foi, talvez a melhor resposta seja a mais simples – e a mais verdadeira: "Não sei, só sei que foi assim." (parafraseando o Chicó em O Auto da Compadecida).

Que 2025 seja um ano de emoções reais, vividas com intensidade e coragem.


Abraço afetuoso,
Adri

Ei, este ano minha intenção é escrever para vocês todas as semanas (mas sem promessas rígidas, ok?). Quero muito saber: o que você gostaria de ler por aqui? Me escreva e compartilhe suas ideias!

E por que não prometo? Não é por falta de compromisso com você, mas porque sei que a vida pode surpreender e quero lidar com isso de forma leve, sem cobranças desnecessárias. Assim, seguimos juntos, com autenticidade.

Nos encontramos aqui na semana que vem. Até lá!

Ah, e antes de ir: se este texto fez você refletir ou lembrar de alguém que pode gostar, que tal compartilhar? Lá no alto da página tem um ícone que facilita tudo. Assim, a gente espalha essas ideias e, quem sabe, inspira mais pessoas.

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