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Engolimos o panóptico e chamamos isso de liberdade
Adriana Ferrareto Edição #018

Pan-óptico é um termo utilizado para designar um modelo de prisão onde um único guarda pode observar todos os presos sem que eles saibam quando estão sendo vigiados.
Estamos vivendo tempos em que a produtividade é supervalorizada.
Quando finalmente temos um tempinho livre, parece que não conseguimos aproveitar como gostaríamos.
Mas o que está acontecendo conosco?
Parece que internalizamos o conceito de panóptico!
O que é panóptico?
O conceito de panóptico, criado por Jeremy Bentham no século XVIII, descreve um modelo de prisão onde um único guarda pode observar todos os presos sem que eles saibam quando estão sendo vigiados.
A ideia principal é:
o controle por meio de uma vigilância invisível faz com que as pessoas se autocensurem e ajustem seus comportamentos, já que nunca sabem ao certo se estão sendo observadas.
O panóptico, segundo Foucault, é uma metáfora para o funcionamento do poder disciplinar na sociedade moderna. Instituições como escolas, fábricas, hospitais e até o exército operam sob essa lógica, moldando comportamentos através da vigilância e da normalização.
E não era só Foucault que pensava assim...

Reconhece essa cena? Enquanto faz esteira, ouve um podcast para se atualizar e lê as mensagens para “aproveitar o tempo da melhor forma possivel” 😱
O Panóptico segundo Byung-Chul Han
Ele propõe que não vivemos mais em uma sociedade onde somos moldados por regras rígidas e vigilância externa.
Em vez disso, estamos em um ambiente onde a pressão para se destacar vem de dentro, e as pessoas já incorporaram essa vigilância e a necessidade de se expor.
Em outras palavras:
hoje não precisamos de uma torre de vigia nos observando: nós mesmos nos expomos e nos vigiamos voluntariamente, seja nas redes sociais ou na busca incessante por produtividade e autoaperfeiçoamento.
📌Por quê isso é importante?:
Internalizamos o controle (como eu disse lá no começo: “engolimos” o tal do panóptico)
Hoje em dia, enxergamos o controle de uma forma diferente: Em vez de ser algo ruim, ele se tornou um desejo de sermos aceitos.
A vigilância não é mais imposta, mas sim uma maneira de tentarmos melhorar a nós mesmos.
No entanto, essa busca constante por sermos melhores pode nos deixar ansiosos, cansados e tristes, já que nunca sabemos quando parar.
O controle também vem da forma como lidamos com o mundo digital, onde acreditamos que estar sempre visíveis é sinônimo de liberdade.
A busca incessante por ser produtivo e a ideia de que precisamos estar sempre ocupados podem realmente afetar nossa saúde mental e física.
Tempo livre para quê?
Para muitos, o descanso não é uma escolha, mas um luxo inacessível. Longas jornadas, múltiplos empregos e deslocamentos exaustivos fazem do tempo livre uma raridade.
Se podemos pausar, é um privilégio – e justamente por isso, devemos valorizá-lo.
Descansar não é desperdício; é necessidade. O excesso de trabalho não apenas esgota, mas também reforça desigualdades.
Quem tem tempo para si encontra espaço para refletir, criar e fortalecer laços.
Se podemos parar, que paremos sem culpa – e sem esquecer de lutar para que o descanso seja um direito, não um privilégio.
Todos merecemos tempo livre para:
Desacelerar e valorizar o ócio – O descanso não deve ser visto como improdutivo, mas como essencial para a criatividade e o bem-estar.
Reconectar-se com o silêncio e a contemplação – Em um mundo hiperconectado, cultivar momentos de silêncio ajuda a recuperar a autonomia sobre nossos pensamentos.
Redefinir o sucesso e a produtividade – Questionar a lógica do desempenho incessante e entender que viver bem não significa produzir sempre.
Construir relações mais autênticas – Em vez de apenas nos expormos nas redes, buscar conexões reais que nos fortaleçam sem a necessidade de validação constante.
Essas práticas nos ajudam a sair do ciclo exaustivo da autopressão e encontrar um ritmo de vida mais humano e sustentável.
1 coisa: E se você tiver que lembrar de apenas uma coisa de tudo isso que leu até aqui, lembre-se do seguinte:
Nos vigiamos, nos cobramos o tempo todo e chamamos isso de liberdade.
Quer aprofundar mais?
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É isso ai! Obrigada por chegar até aqui. Se gostou, compartilha esse texto com alguém que possa ajudar, ok?
Forte abraço,
Adriana
Se esse texto fez você repensar sua carreira e a forma como tem lidado com tudo, me escreva: [email protected]. Vamos conversar sobre como o Coaching de Pontos Fortes pode te ajudar.
E se quiser continuar essa reflexão, meu livro de crônicas "Vou ali e já volto – 40 anos no deserto" está aqui!
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